As alterações climáticas estão a tornar os episódios de calor extremo mais frequentes, intensos e prolongados. Embora os seus impactos sejam frequentemente associados à saúde humana, aos incêndios rurais ou à escassez de água, existe outro efeito que nem sempre recebe a devida atenção: as consequências para a fauna selvagem, em particular para as aves durante a época de reprodução.
Um exemplo recente é a iniciativa desenvolvida pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), no âmbito do projeto LIFE SOS Pygargus, que instalou pequenos abrigos temporários para proteger as crias de tartaranhão-caçador (Circus pygargus) das elevadas temperaturas.
A medida pretende reduzir o risco de sobreaquecimento dos ninhos e aumentar a sobrevivência das crias de uma espécie classificada em Portugal como “Em Perigo”.
Esta ação demonstra como a conservação da natureza exige, cada vez mais, respostas adaptadas aos desafios colocados pelas alterações climáticas.
SABIA QUE…
O tartaranhão-caçador é hoje uma das aves de rapina mais ameaçadas em Portugal.
O primeiro censo nacional desta espécie, realizado em 2022 e 2023, estimou uma população entre 119 e 207 casais reprodutores. Quando comparados com os dados de 2012, estes números representam uma redução de 76% a 79%, evidenciando a urgência de reforçar os esforços de conservação.
O calor extremo é uma ameaça crescente para a avifauna
As aves possuem mecanismos naturais que lhes permitem regular a temperatura corporal. A procura de sombra, a redução da atividade durante as horas mais quentes do dia e a respiração acelerada são algumas das estratégias utilizadas para reduzir o excesso de calor.
Contudo, quando as temperaturas permanecem muito altas durante vários dias consecutivos, estes mecanismos podem ser insuficientes, sobretudo em habitats abertos e com reduzida cobertura vegetal.
As ondas de calor provocam uma maior sobrecarga para o organismo, elevam o risco de desidratação e obrigam as aves a alterar os seus padrões de alimentação e comportamento, podendo comprometer o sucesso reprodutor e a sua própria sobrevivência.
Porque são as crias mais vulneráveis?
A fase de reprodução é particularmente crítica. Muitas espécies nidificam entre a primavera e o verão, precisamente quando ocorrem os períodos de maior calor.
As crias apresentam uma capacidade limitada para regular a temperatura corporal e dependem inteiramente dos progenitores para obter alimento, proteção e condições adequadas ao seu desenvolvimento. Em ninhos expostos ao sol, a temperatura pode atingir valores que colocam em risco a sua sobrevivência.
No caso do tartaranhão-caçador, que constrói os ninhos diretamente no solo, em campos agrícolas e zonas abertas, a exposição à radiação solar é especialmente elevada. Sem qualquer proteção natural, as crias podem sofrer desidratação, atrasos no crescimento e, em situações extremas, mortalidade antes de completarem o desenvolvimento.
Também os adultos enfrentam um esforço acrescido, uma vez que necessitam de alternar entre a proteção do ninho e a procura de alimento e água, aumentando o desgaste energético durante um período já exigente do ciclo de vida.
Pequenas intervenções podem ter um impacto significativo
A instalação de abrigos temporários sobre os ninhos do tartaranhão-caçador é um exemplo de uma medida de mitigação simples, mas eficaz.
Ao criar uma zona de sombra sobre o ninho, reduz-se a temperatura a que as crias estão expostas durante as horas de maior calor, diminuindo o risco de sobreaquecimento e aumentando a probabilidade de sobrevivência.
Este tipo de intervenção evidencia a importância de desenvolver soluções específicas para cada espécie, tendo em consideração o seu comportamento, o habitat onde ocorre e os fatores de risco a que está sujeita.
Embora não elimine os efeitos das alterações climáticas, representa uma resposta prática que pode contribuir para melhorar o sucesso reprodutor de populações particularmente vulneráveis.
Proteger as aves é proteger os ecossistemas
As aves desempenham funções ecológicas essenciais, desde o controlo natural de pragas à dispersão de sementes e ao equilíbrio das cadeias alimentares. A diminuição das suas populações pode desencadear impactos que se refletem em todo o ecossistema.
Proteger a avifauna durante os períodos de calor extremo não significa apenas preservar espécies ameaçadas. Significa também promover ecossistemas mais resilientes, capazes de responder aos efeitos das alterações climáticas.
A NOCTULA – Consultores em Ambiente presta serviços especializados de monitorização de sistemas ecológicos, nomeadamente para avifauna, desde aves de rapina, passeriformes em geral, aves de montanha, aves aquáticas e marinhas a aves estepárias e noturnas.
A nossa equipa foi responsável pela monitorização de Tartaranhão-caçador durante a fase de exploração do Parque Eólico de Negrelo e Guilhado.
Fomos também responsáveis pela coordenação dos trabalhos de monitorização da Avifauna durante a fase exploração do Sobreequipamento do Parque Eólico de Alto da Coutada. Os trabalhos de monitorização centraram-se na avaliação de eventuais impactes sobre a população de aves em geral, através da análise da sua mortalidade por colisão com os aerogeradores e na população de Tartaranhão-caçador, através da avaliação de um eventual efeito de exclusão.
Caso necessite de algum serviço nesta área não hesite em contactar-nos.



