Relatório “Estado das Aves em Portugal 2019” – Censos e Programas de Monitorização

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O relatório “Estado das Aves em Portugal | 2019”, divulgado recentemente pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), revela dados alarmantes sobre o estado da avifauna em Portugal.

Segundo este relatório, no continente Europeu, cerca de 39% de um total de 170 espécies de aves comuns encontra-se atualmente em situação de declínio populacional. Estas perdas são ainda mais preocupantes tendo em conta o papel fulcral que as espécies mais comuns têm nas cadeias tróficas e na sua contribuição para o bom funcionamento dos ecossistemas.

A perda maciça de biodiversidade está diretamente associada às atividades humanas e aos seus impactos, tendo em conta fatores como:

  1. a intensificação da agricultura, com consequências diretas na homogeneização da paisagem agrícola, na degradação das zonas húmidas e outros habitats essenciais e na redução da quantidade de insetos e plantas nativas;
  2. a sobrepesca e as capturas acidentais;
  3. a caça e o abate ilegal;
  4. a crescente urbanização e o desenvolvimento de grandes vias de transporte e linhas elétricas, que prejudicam e separam áreas importantes para a fauna;
  5. a falta de gestão nas áreas protegidas.

O relatório “Estado das Aves em Portugal 2019” reúne os resultados atualizados de 18 censos e programas de monitorização das aves em Portugal, ao longo da última década e meia. O acesso aos resultados está disponível para todos os interessados no estado das populações de aves em Portugal, desde os cidadãos até aos decisores políticos.

O Censo de Aves Comuns (CAC) é um programa de monitorização de aves lançado pela SPEA em 2004. Este censo tem como principal objetivo dar a conhecer as tendências populacionais das espécies de aves comuns que nidificam no território nacional.

Os dados do CAC contribuem para o Esquema Pan-europeu de Monitorização de Aves Comuns, organizado pelo EBCC (European Bird Census Council) que agrega os dados dos censos de aves comuns de grande parte dos países europeus e produz tendências para estas espécies, ao nível da Europa.

Nesta primeira edição, foi dada prioridade à inclusão de todos os programas de monitorização e censos de aves organizados pela SPEA, no entanto, as próximas edições poderão incluir os resultados de outros censos realizados no território português, organizados pela SPEA ou por outras entidades, contribuindo para uma melhor compreensão do estado atual da avifauna, do impacto das diversas ameaças e para ajudar no estabelecimento de prioridades para a conservação das espécies e dos seus habitats.

Principais resultados

Segundo o relatório “Estado das Aves de Portugal 2019″, as espécies de aves com os declínios mais acentuados são:

1) Rola-brava (Streptopelia turtur)

A população de rola-brava diminuiu 80% nos últimos 15 anos. Têm sido registados decréscimos populacionais significativos, principalmente por causa da destruição dos habitats nos locais, da intensificação agrícola, da degradação dos habitats de nidificação, da alimentação e da caça.

2) Picanço-barreteiro (Lanius senator)

O picanço-barreteiro encontra-se em declínio desde 2011.

3) Mocho-galego (Athene noctua)

Esta espécie residente em Portugal, tem revelado uma evolução populacional negativa, afetada principalmente pela intensificação agrícola, mais concretamente pelo uso de pesticidas e pelas monoculturas intensivas.

4) Alcaravão (Burhinus oedicnemus)

Esta ave está classificada como “Vulnerável” em Portugal e é uma das duas espécies avaliadas pelo programa NOCTUA – Monitorização de Aves Nocturnas em Portugal, que  registar um declínio acentuado entre os anos 2010 e 2019. A outra espécie avaliada é o mocho-galego (Athene noctua).

5) Tartaranhão-cinzento (Circus cyaneus)

O tartaranhão-cinzento é uma das espécies que apresenta uma preocupante tendência regressiva. A intensificação da agricultura, o sobrepastoreio e a destruição dos habitats onde se alimenta e onde pernoita,  são algumas das maiores ameaças a esta espécie.

6) Sisão (Tetrax tetrax)

Esta ave tem vindo a sofrer declínios populacionais desde 2004/2005. Entre as principais ameaças a esta espécie estão a intensificação agrícola, a perda e fragmentação do habitat e a colisão com linhas eléctricas.

7) Galheta ou corvo-marinho-de-crista (Phalacrocorax aristotelis)

Em apenas cinco anos, o maior núcleo reprodutor de galheta do nosso país (nas Berlengas) diminuiu cerca de 25%.

8) Milhafre-real (Milvus milvus)

Esta é uma das aves de presa mais ameaçadas de Portugal. A população reprodutora está classificada como “Criticamente em Perigo de Extinção”. Já a população invernante tem estatuto de “Vulnerável”.

9) Cagarra (Calonectris borealis) no Farilhão Grande

Apesar de na ilha da Berlenga a população de cagarras ter aumentado, esta espécie tem vindo a diminuir substancialmente no Farilhão Grande, local onde ocorre a principal colónia de cagarra.

Para além destas espécies com declínios acentuados, o relatório “Estado das Aves de Portugal” refere mais 32 espécies que têm declínios moderados, como por exemplo: o pintassilgo, a andorinha-das-chaminés, o abelharuco, o pardal-comum, o cuco, a águia-de-asa-redonda, a coruja-das-torres e a perdiz.

Apesar do panorama preocupante, esta compilação de dados tem uma nota positiva: a eficácia das ações de conservação de natureza.

A SPEA elogia os investimentos que têm sido feitos na conservação de algumas espécies raras ou ameaçadas, como o priolo (Pyrrhula murina), na ilha de São Miguel, nos Açores, ou da cagarra, na ilha da Berlenga. Domingos Leitão, diretor-executivo da SPEA, refere que “o investimento na conservação da natureza produz resultados e não é só ao nível das espécies que são salvas. Proteger e recuperar a imensa riqueza natural do nosso país é contribuir para a economia local e promover atividades sustentáveis”.

Outra conclusões

O relatório “Estado das Aves em Portugal 2019” revela também outras tendências preocupantes:

Política agrícola perigosa

As aves dos campos portugueses estão a desaparecer a um ritmo assustador. Os dados recolhidos em vários programas de monitorização concluíram que como consequência da intensificação da agricultura, com o investimento no regadio intensivo, nas estufas e nos agroquímicos, as aves de zonas agrícolas estão em declínio.

“Para salvar o património natural, Portugal tem que investir numa melhor Política Agrícola Comum e na gestão adequada dos sistemas agrícolas extensivos, que contribuem para a conservação da biodiversidade, dos solos e da água”, diz Domingos Leitão.

Declínios no mar

Também nos oceanos e na orla costeira há dados inquietantes. As aves invernantes e as migradoras, para as quais Portugal é um importante refúgio e ponto de passagem, estão também em declínio.

Segundo Domingos Leitão, “é preciso travar ameaças que estão bem identificadas, como a captura acidental nas pescas e a poluição luminosa”.

Invasoras a aumentar

Um outro aspeto focado neste relatório, são as espécies originárias de outras zonas do globo e introduzidas em Portugal por ação humana, que estão a espalhar-se pelo território nacional e que poderão trazer problemas para as aves nativas, a quem poderão retirar espaço e alimento.

Para consultar o relatório completo, clique AQUI.


NOCTULA – Consultores em Ambiente desenvolve trabalhos no âmbito da Monitorização de Sistemas Ecológicosnomeadamente, monitorizações de:

  1. Aves;
  2. Mamíferos terrestres, marinhos e voadores;
  3. Fito e Zooplâncton;
  4. Invertebrados;
  5. Herpetofauna (anfíbios e répteis);
  6. Monitorização de Flora, Vegetação e Habitats.

Veja aqui alguns do trabalhos realizados pela NOCTULA nestas áreas:

1) Monitorização de Tartaranhão-caçador no parque eólico de Negrelo e Guilhado;

2) Atividade e mortalidade de Aves e Quirópteros – Parque Eólico Testos II;

3) Monitorização de Aves e Quirópteros – Sobreequipamento do Parque Eólico Pena Suar;

4) Monitorização de Avifauna, em particular a comunidade de Peneireiro (Falco tinnunculus) – Parque Eólico da Maunça.

Caso necessite de algum serviço na área da Monitorização de Sistemas Ecológicos, não hesite em contactar-nos: 232 436 000.


Fontes: SPEA, Wilder

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